Quem nunca preencheu um cheque pode estranhar ao descobrir que o número 1 era escrito como “hum”, com H, nesses documentos bancários. R$ 1.000,00 aparecia grafado como “Hum mil reais” no campo de preenchimento por extenso.
O que parece ser um erro ortográfico tinha, na verdade, uma função específica: proteger contra fraudes bancárias. Essa prática, hoje praticamente desconhecida pelas gerações mais jovens, revela como a língua portuguesa se adaptava às necessidades de segurança financeira numa época em que as transações dependiam exclusivamente de documentos físicos.
Por que “hum” com H era uma estratégia antifraude
A principal razão para escrever “hum” com H nos cheques estava diretamente ligada à prevenção de adulterações no valor do documento. Quando alguém escrevia apenas “um mil reais”, deixava o cheque vulnerável a modificações mal-intencionadas. Falsificadores poderiam transformar “um mil reais” em “cinquenta e um mil reais”, simplesmente acrescentando palavras antes do número original.
A grafia “hum”, iniciada com H, tornava qualquer tentativa de alteração muito mais difícil. A letra H no início funcionava como uma barreira contra possíveis adulterações, já que poucas palavras na língua portuguesa poderiam ser adicionadas antes dela de forma convincente. Essa técnica protegia tanto quem emitia quanto quem recebia o cheque.
A legitimidade gramatical do “hum”
Uma forma reconhecida pela norma culta
Do ponto de vista gramatical, “hum” com H existe oficialmente nos dicionários da língua portuguesa. Trata-se de uma forma arcaica ou formal do numeral um, utilizada em contextos específicos como:
- Documentos oficiais e cartorários
- Textos jurídicos e contratos
- Editais e proclamas
- Cheques e documentos bancários
Diferença entre o numeral e a interjeição
Vale distinguir o “hum” numeral do “hum” interjeição. Enquanto o primeiro representa o número 1 em contextos formais, o segundo expressa dúvida ou reflexão na linguagem coloquial. Ambas as formas estão corretas, mas possuem funções completamente diferentes.
O contexto histórico dos cheques no Brasil
Era dourada e declínio
Os cheques foram durante décadas o principal meio de pagamento não-monetário no Brasil. Nos anos 1990, milhões de brasileiros utilizavam cheques diariamente para compras e pagamentos diversos.
A preocupação com fraudes era constante, motivando o desenvolvimento de várias técnicas de segurança, incluindo o uso do “hum” com H. Com a chegada dos cartões de crédito, débito e, mais recentemente, o Pix, o uso de cheques diminuiu.
Outras práticas de segurança em cheques
Técnicas complementares de proteção
Além do “hum” com H, existiam outras recomendações de segurança:
- Preenchimento completo: todos os espaços vazios deviam ser preenchidos com traços
- Proximidade dos valores: escrever números bem próximos ao símbolo R$
- Sem espaços em branco: evitar lacunas antes ou depois dos valores
- Caneta permanente: usar sempre tinta que não pudesse ser apagada
Cruzamento e nominação
Outras medidas incluíam o cruzamento de cheques (dois traços paralelos no canto superior) e a nominação (especificar o beneficiário), práticas que limitavam as possibilidades de uso indevido do documento.
O legado cultural de uma prática bancária
A tradição do “hum” com H transcende sua função original e hoje representa uma curiosidade linguística e histórica. Documentos antigos ainda preservam essa grafia, e alguns cartórios mantêm a prática em atos formais.
Embora hoje as transações digitais sejam predominantes, já houve um período em que a segurança financeira envolvia cuidados com a ortografia — uma estratégia que reflete a constante adaptação das sociedades na prevenção de fraudes.
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Perguntas frequentes
O “hum” com H ainda pode ser usado em documentos oficiais?
Sim, a forma continua sendo aceita e reconhecida em contextos formais, especialmente em cartórios e documentos jurídicos, embora não seja mais obrigatória.
Existia alguma lei que determinava o uso do “hum” com H?
Não havia legislação específica. Era uma prática bancária recomendada pelas instituições financeiras como medida de segurança.
Como outros idiomas resolviam o problema de segurança em cheques?
Cada país desenvolveu suas próprias técnicas.
Existe algum documento atual que ainda exija o “hum” com H?
Alguns cartórios e tabelionatos mantêm a tradição em escrituras e procurações, mas não há exigência legal para isso.









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